• Ana Erra

O mundo somos todos nós (written in Portuguese)


Entramos numa nova fase da pandemia - aos poucos, o regressar à vida lá fora. E assim, parece ir terminando o período de confinamento rigoroso que tanto trouxe para as nossas vidas. Trouxe medo, ansiedade, angústia e confusão - absolutamente normais - perante uma situação verdadeiramente preocupante que desafia todo o nosso modo de vida. Pode ter também trazido à superfície o que estava lá no fundo, dentro de nós, (des)arrumado pela agitação dos dias. Uma situação que, sem aviso ou permissão e de forma abrupta, quebra o equilíbrio psíquico e social - e por isso se chama crise. Torna-se então crucial aceder aos recursos internos disponíveis bem como aos recursos externos, apoio emocional e social a que cada um possa ter acesso. Requer adaptação e, se tivemos que nos adaptar ao confinamento, temos agora que nos ajustar ao desconfinamento.


Com a crise vem, inevitavelmente, a mudança. Imagina-se sobre o mundo que vamos encontrar. Desejamo-lo transformado num mundo melhor. O mundo somos todos nós, e mudará se cada um de nós mudar. O mundo lá fora muda se nós mudarmos cá dentro. E talvez este desejo por um mundo transformado reflita uma ânsia recôndita pela nossa mudança interna - é geralmente mais fácil deixar-nos ficar no pensamento mágico de que se lá fora muda tudo fica melhor, ainda que cá dentro - de nós - permaneça tudo igual.


Ainda que possa existir o desejo da mudança (externa e interna), o medo dela pode ser maior. Medo da perda. Medo do novo, que é desconhecido, e que pode também ser sentido como assustador e ameaçador. Alguns sentem tanto medo que é necessário negar o que está a acontecer. Mergulham num programa frenético de atividades e na obsessão de ser produtivo, numa tentativa vigorosa de manter a normalidade, e o controlo, que inevitavelmente se escapa. Pode também levar, nesta fase de desconfinamento, à compulsão da repetição, agarrando-se ao que era e que é conhecido - ainda que já não sirva mais.


A mudança, intrínseca à vida, instila movimento e marca ciclos. Carrega esperança, entusiasmo e possibilidades. Ganha-se e também se perde. Lidar com a mudança é primeiro reconhecer a perda que lhe é inerente. Perdemos o contacto físico com amigos e família, a certeza de poder estar com eles, a tranquilidade de sair de casa, a ‘normalidade’, talvez alguém significativo por morte, o trabalho - ou pelo menos o trabalho como era -, os projetos e objetivos que havíamos definidos. Perdemos o que era tido como garantido. Perdemos o que era e o que achávamos que iria ser. Mas não perdemos a nossa capacidade de sentir, de nos deixar tocar (não o toque físico, o outro), de nos observar, pensar e refletir.


A vivência emocional da perda possibilita-nos lidar com a mudança inevitável. Este processo emocional e natural associado à perda significativa (de alguém ou algo) - ou seja, o luto - sustém e nutre o nosso desenvolvimento psíquico e processo de individuação. Permite a transformação alquímica da desolação da perda na capacidade de encarar a nova vida. Ainda somos uma sociedade com aversão ao luto, à tristeza, considerando difícil de lidar e por isso é de evitar, querendo que passe o mais rápido possível. Criou-se a ideia de que é preciso estar sempre de bom humor, feliz. Mas sentir a perda - entristecer, zangar - para libertar, elaborar e aceitar. Para criar espaço interno e poder receber, com esperança e curiosidade, o que virá. Integrar o luto das perdas para poder prosseguir num caminho de novas oportunidades, descobertas e com significado.


Sentimos, e somos, no momento presente. E no momento presente habita a vivência e a escolha. Deixarmo-nos tocar e mudar internamente é escolher ir ao nosso mundo interno, visitando lugares conhecidos e aventurar pelos desconhecidos ou ignorados, numa viagem exploratória de descoberta interior, crescimento e transformação. Podemos embarcar nesta viagem sós, e também fazê-la em companhia de quem está já acostumado a estas viagens (a sua própria e dos outros).


Diz-se que crise é oportunidade - é oportunidade para repensar quem somos e quem queremos ser. Repensar-nos para crescermos enquanto indivíduos e sociedade. Ao estarmos em contacto com o que sentimos, com sentir a perda, tornamo-nos mais resilientes e preparados para lidar com os desafios e enfrentar o futuro. Podemos, assim, juntos construir uma sociedade mais emocional, consciente, autêntica, empática e com mais compaixão - pelo outro e por nós próprios. Um mundo transformado, mais humano e com significado. Um mundo que as nossas crianças vão herdar.

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